INTRODUÇÃO – FUNDAMENTOS
A Aspiração à Transcendência – O desejo de transcender as condições humanas, de ir além da consciência e da personalidade que conhecemos, é uma aspiração profunda e tão antiga quanto a própria humanidade.
Vemos essa aspiração operando na magia das pinturas rupestres da Europa Meridional, e, ainda antes disso, nos túmulos paleolíticos do Oriente Médio. Em ambos os casos se expressam o desejo de contato com uma realidade maior. Também encontramos esse desejo nas crenças e ritos animistas do Xamanismo arcaico e vemo-lo florescer nas tradições religiosas da era neolítica – na civilização do Indo-Sarasvatî, na Suméria, no Egito na China.
Mas essa aspiração à transcendência não encontrou em nenhum outro lugar uma expressão tão coerente e criativa quanto encontrou na península indiana. A civilização da Índia gerou uma variedade avassaladora de crenças, práticas e perspectivas espirituais, todas as quais tem como objeto uma dimensão da realidade que supera em muito a vida humana individual e o cosmos ordenado que a humanidade percebe e imagina. Essa dimensão já foi chamada Deus, o Ser Supremo, o Absoluto, o Si Mesmo (transcendental), o Incondicionado e o Eterno.
Muitos foram os pensadores, místicos e sábios - não só da Índia como também do resto do mundo – que nos deram uma ampla variedade de imagens ou explicações dessa Realidade última e da sua relação com o universo manifestado. Todos, porém, concordam em que Deus, ou o Si Mesmo, transcende tanto a linguagem quanto a própria mente. Com poucas exceções, eles também são unânimes em afirmar três coisas correlacionadas – a saber, que o Supremo:
1. É único – isto é, um todo indivisível e completo em si mesmo, fora do qual nada existe;
2. Tem um grau mais alto de realidade do que o mundo da multiplicidade e que se reflete para nós através dos sentidos;
3. E é o nosso bem (nihshreyasa; latim: summum bonum), isto é mais desejável de todos os valores possíveis.
A espiritualidade da Índia, que leva o nome de Yoga, é sem dúvida alguma a mais versátil do mundo. Com efeito, é difícil descobrir algum problema ou solução metafísica que já não tenha sido concebido pelos sábios e pânditas da Índia antiga ou medieval. “Os tecnólogos sagrados da Índia” captaram e analisaram todo aspectro das possibilidades psicoespirituais – desde os estados paranormais até a iluminação permanente (chamada sahaja-samâdhi ou êxtase espontâneo), passando pela consciência unitiva da realidade temporária Deus.
O Yoga é uma tradição espiritual extremamente rica e complexa, com uma história que, segundo as teorias atuais, tem pelo menos cinco milênios. Inclui um grande numero de abordagens, escolas, mestres, textos, práticas e termos técnicos. Em vista dessa versatilidade e de sua longa história, oYoga deve ser considerado como a mais importante tradição de transformação psicoespiritual.
O Yoga é uma das realizações mais extraordinárias do engenho humano e certamente uma das mais fascinantes criações das aspirações espiritual. E resposta madura da Índia à questão universal ¨Quem sou eu?” Uma questão que, cedo ou tarde, há de se impor à consciência de qualquer indivíduo em busca de si mesmo, nossa civilização moderna e de base científica fez praticamente desaparecer a espiritualidade e o questionamento existencial mais profundo. Em grande parte, a religião se tornou sinônimo de moralidade, e o impulso místico – ou verdadeiramente espiritual – foi inteiramente esquecido. O Yoga, como é compreendido aqui, é uma tradição esotérica dentro da versátil cultura religiosa do Hinduísmo. É um dos ramos de investigação espiritual mais antigo e constantes do mundo e, superado apenas pelo xamanismo,é o mais intenso experimento do espírito humano. O experimento yogue não teve o objetivo de explorar o comportamento da matéria, mas as propriedades e os limites da consciência. A consciência tem primazia sobre a matéria – uma noção que aos poucos vem sendo ressuscitada por novas revelações nos campos da Física e da Parapsicologia. A história do Yoga abrange cerca de cinco mil anos, em comparação a com os dois mil anos do Cristianismo e os três séculos da civilização secular ¨moderna¨. Suas raízes se aprofundam no Xamanismo arcaico e sua longa evolução está atrelada ao gradual desdobramento das muitas expressões culturais da Índia, principalmente o Hinduísmo, Budismo e Jainismo.
YOGA( do radical yuj, ¨jungir¨) A palavra yoga tem uma gama de aplicações na língua sânscrita, como União, ¨equipe¨, ¨soma¨,¨equipamento¨,¨conjunção¨ etc. Há muito tempo, passou a ser aplicada também a ¨esforço espiritual¨, especificamente o controle da mente (manas) e dos sentidos (indrya).
Yoga ou Yôga? – Yoga é um termo sânscrito e a pronúncia correta é ‘yôga’ como na palavra iodo, porém, para grafia não precisa do acento.
Atualmente, Yoga costuma ser traduzido, principalmente por união. União consigo próprio. União com o Absoluto.
SISTEMAS DO YOGA – Quando os princípios filosóficos e técnicas do Yoga são compostos dentro de uma metodologia específica para serem colocados em práticas, é natural que surja uma grande diversidade métodos ou caminhos, refletindo as modificações variações que representam necessidades, histórico, crenças, valores, personalidade e objetivos de cada indivíduo. Em sua essência, o Yoga é um caminho pessoal de desenvolvimento interno, logo, em ultima instância, poderíamos afirmar que existe um método ou Caminha de Yoga para cada indivíduo. Dessa forma, entre os mais de cem métodos diferentes de Yoga que são encontrados na literatura tradicional, há um conjunto menor, citado nas upanishads, que reflete as características essenciais do ser humano; outros caminhos podem ser interpretados como desdobramentos e variações destes.
Esses diversos caminhos do Yoga, assim como a explicação sobre os angas (partes), não devem ser entendidos como caminhos mutuamente exclusivos ou contraditórios, mas como elementos fundamentais que devem ser combinados e aplicados conforme a sua característica pessoal.
Dessa forma, os seis sistemas principais, listados nas upanishads, são:
· KARMA YOGA: o caminho da ação;
· JÑÁNA YOGA: o caminho do conhecimento e do questionamento;
· HATHA YOGA: o caminho da purificação ou balanceamento das energias do corpo;
· RÁJA YOGA: o caminho da introspecção;
· MANTRA YOGA: o Yoga do som ou da libertação da mente;
· LÁYÁ YOGA: o caminho da dissolução da consciência.
Os seis sistemas listados encontram-se registrados nas upanishads, contudo é necessário acrescentar também BHAKTI YOGA a esse grupo. Originalmente, Bhakti não se referia a um sistema completo de Yoga, mas, sim a uma atitude que acompanha o praticante em qualquer sistema e era uma condição inerente ao Sádhana; posteriormente, também se desenvolveu com um sistema próprio e independente, BHAKTI YOGA, sendo definido com o caminho da devoção.
De acordo com a classificação adotada, o Rája Yoga de Patañjali, o Mantra Yoga e o Láyá Yoga podem Ser genericamente considerados parte do Rája Yoga, por serem métodos introspectivos com várias práticas mentais envolvidas. Desse grupo também fazem parte KUNDALINÍ YOGA, TANTRA YOGA E KRIYÁ YOGA.